Restaurando a Biblioteca mais antiga do mundo

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SIBiUSP 2016

por Karen Eng.

A antiga Biblioteca al-Qarawiyyin em Fez não é apenas a biblioteca mais antiga da África. Fundada em 859, é a biblioteca mais antiga do mundo e guarda manuscritos com mais de 12 séculos. Porém, o edifício que abriga a biblioteca não está tão conservado. Foi por isso que, em 2012, o Ministério da Cultura marroquina abraçou a ideia de restaurar a biblioteca para poder reabri-la ao público. A arquiteta Aziza Chaouni [1] conta um pouco dessa experiência. Nesta matéria, ela descreve os desafios inerentes à realização de um projeto difícil e histórico em uma cidade milenar como Fez. (PS: ela foi bem-sucedida, a biblioteca reabre em maio de 2016 ).

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Entrada da Biblioteca al-Qarawiyyin.
Photo: Aziza Chaouni

Primeiro, um pouco de história. Desafiando suposições comuns sobre a contribuição das mulheres na civilização muçulmana, a Biblioteca al-Qarawiyyin foi criada por uma mulher.  A al-Qarawiyyin, que inclui uma mesquita, biblioteca e universidade, foi fundada por Fatima El-Fihri, filha de um imigrante rico de al-Qayrawan (Tunísia hoje). Bem educada e devota, ela jurou gastar toda a sua herança na construção de uma mesquita e centro de conhecimento para a sua comunidade. Segundo a UNESCO, o resultado é a instituição de ensino mais antiga do mundo em operação, muito elogiada por seus ex-alunos. Lá estudaram o poeta místico e filósofo Ibn Al-Arabi no século 12 e, no século 14, Ibn Khaldun, historiador e economista. Nos tempos medievais, Al-Qarawiyyin desempenhou papel fundamental na transferência de conhecimento entre muçulmanos e europeus.

A deterioração da biblioteca significava que os manuscritos raros estavam à mercê dos elementos. “Quando visitei pela primeira vez, fiquei chocada com o estado do lugar”, diz Chaouni. “Nas salas que continham os preciosos manuscritos que datam do século 7, a temperatura e a umidade não estavam controladas, e havia fissuras no teto”. Estavam em risco: os volumes antigos abrangendo séculos de conhecimentos em áreas do direito à teologia, da gramática à astronomia. Embora os estudiosos tivessem acesso aos materiais, a condição de deterioração da biblioteca determinou seu fechamento para o público. Em 2012, o Banco Árabe do Kuwait forneceu um subsídio de preservação cultural para o Ministério Marroquino de Cultura, que pediu a Chaouni não só para restaurar os edifícios e proteger os materiais, como também reabrir a biblioteca como um novo espaço público.

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Entrada da Sala de Leitura.
Photo: Aziza Chaouni

Trazer uma biblioteca de 1.157 anos de idade à atualidade inclui desafios e surpresas. Ao longo dos séculos, a biblioteca tinha sido expandida através de uma mistura de edifícios interligados, cada um construído em um nível diferente de uma colina íngreme. O trabalho de Chaouni foi unificar e atualizar todos os edifícios num mesmo padrão. “Ao longo dos anos, a biblioteca passou por muitas reformas, mas ainda sofria de graves problemas estruturais, falta de isolamento, deficiências de infra-estrutura como, por exemplo, o sistema de drenagem que estava bloqueado, azulejos quebrados, vigas de madeira rachadas, fios elétricos expostos e assim por diante”, explicou Chaouni a respeito dos desafios arquitetônicos que enfrentou.

Restaurar a antiga biblioteca tentando respeitar sua autenticidade tem seus próprios problemas. Por exemplo, como encontrar material similar para combinar peças ausentes ou quebradas de zellige antigo (mosaico cerâmico) ou trilhos e vigas do teto de madeira rachados? A limpeza dos delicados entalhes de gesso sem quebrá-los também foi difícil. E o projeto foi cheio de surpresas: “Um dos aspectos surpreendentes restaurando um edifício desta idade é que você nunca sabe o que está atrás de uma parede. Você poderia raspar uma parede e encontrar uma pintura, tirar a pintura e encontrar uma porta – e assim por diante. Descobrimos algumas coisas inesperadas, especialmente subterrâneas, tais como um sistema de esgoto de séculos de idade.”

Sala de leitura. Photo: Aziza Chaouni
Sala de leitura. Photo: Aziza Chaouni

O truque é restaurar o passado e olhar para o futuro. Enquanto trabalhava duro para proteger e preservar, Chaouni tinha que trazer um senso de pragmatismo do século 21 para o projeto. “Eu não queria que o edifício se tornasse um cadáver embalsamado! “, diz ela. “Tem de haver um bom equilíbrio entre manter os espaços originais, respondendo às necessidades dos usuários atuais, incluindo estudantes, pesquisadores e visitantes, e integrar as novas tecnologias sustentáveis – Os painéis solares, captação de água para irrigação do jardim e assim por diante.” Outra coisa que foi necessário atualizar: as fontes da biblioteca. Encaixadas dentro do tecido urbano denso da Medina de Fez, as fontes são parte de uma vasta e antiga rede de água da cidade. Chaouni tomou um cuidado especial para restaurar as fontes originais do pátio da biblioteca, mas, onde foi necessário, ela criou novas fontes partindo do zero, usando os materiais e sistemas de construção locais, e introduzindo energia passiva.

Mais de três anos após o início do projeto, a biblioteca será reaberta em maio de 2016. O público poderá percorrer um complexo que inclui uma sala de leitura, estantes de livros, uma sala de conferências, um laboratório de restauro de manuscritos, e uma coleção de livros raros, juntamente com os novos escritórios administrativos e um café. Chaouni também encomendou móveis de madeira de artesãos nativos locais e guarda-chuvas para o pátio construídos de modo a fornecem sombra e umidade nos dias quentes de verão. Enquanto isso, a cúpula do século 12 vai acolher espaços de exposições permanentes e temporárias. A orgulhosa e cansada Chaouni está adicionando toques finais importantes, e está ansiosa para receber os primeiros usuários da biblioteca. “Tanto os marroquinos quanto os visitantes estrangeiros poderão vislumbrar, pela primeira vez, alguns dos manuscritos mais surpreendentes e originais da biblioteca, bem como poderão desfrutar de sua arquitetura.”

Sobre a autora:
Karen Eng é uma escritora que contribui para a TED.com (Organização sem fins lucrativos dedicada a difundir idéias por meio de palestras) especialista em cobrir os feitos maravilhosos dos membros TED. Sua base de trabalho está em Cambridge, Reino Unido.

Nota sobre a arquiteta Chauni:
[1] A arquiteta Aziza Chaouni é membro da organização TED e uma entusiasta defensora da cidade de Fez, no Marrocos. Em 2014, gravou uma palestra para a TED intitulada “Como eu trouxe um rio, e minha cidade, de volta à vida”, onde descreve o processo de recuperação do rio e do casario da cidade, e cujo vídeo está disponível gratuitamente. Fez_TED

Fez_TED

O rio Fez serpenteia através da medina de Fez, Marrocos – uma cidade medieval em forma de labirinto que é um Patrimônio Mundial da Humanidade. Uma vez considerado a “alma” desta celebrada cidade, o rio sucumbiu por conta do esgoto e poluição, e, na década de 1950, foi coberto pouco a pouco até que nada restasse. A TED Fellow Aziza Chaouni reconta seus 20 anos de esforços para restaurar este rio à sua antiga glória, e transformar sua cidade no processo.

Referência

ENG, Karen. Restoring the world’s oldest library. TED, Mar. 1, 2016. Disponível em: <http://ideas.ted.com/restoring-the-worlds-oldest-library/> Acesso em: 03 março 2016.

Como citar este post [ABNT/NBR 6023/2002]:

ENG, Karen. Restaurando a Biblioteca mais antiga do mundo. Tradução de Elisabeth A. Dudziak (do original em inglês de Karen Eng “Restoring the world’s oldest library”, TED, Mar 1, 2016). Disponível em: https://www.aguia.usp.br/?p=4856 Acesso em: DD mês. AAAA.


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